Trabalho perto das urgências dum hospital, em Lisboa.Ontem, à hora da saída, estava reunido um grupo de ciganos: pais, filhos, primos, tios, vizinhos, sogros,... todos.
Porque é assim que eles funcionam, o que há é para todos.
Seja bem ou mal, o empenho é atroz e não, não arredam pé das suas convicções.
Leis à sua maneira, regras a seu bem parecer e solidariedade inquestionável que mais ninguém no mundo consegue igualar.
Eram para mais de 15, é sempre assim.
Reunidos estavam.
Esperavam. Sossegados, calmos, o que nem sempre é assim.
Deduzi que se tratasse dum parto.
Até mesmo estas sociedades segregadas, estas étnias que se fecham, um dia precisam da sociedade onde parasitam e os cuidados médicos são o primeiro passo.
Regresso hoje ao serviço.
São 08h53 e fora do hospital, no parque estacionamento, passaram a noite.
Cobertores pelo chão com gente ainda dormitando, alguns já a pé cheios de ramelas e desgrunhados. Calmos, sem alaridos, o que nem sempre é assim.
Concluo: passaram aqui a noite.
Por vigilia, amizade, tradição, casmurrice ou seja lá porque razão, não abandonaram o local. É sempre assim.
Dentro do hospital está a pessoa por quem eles esperam, por quem eles aguardam para levar para casa, quiça mais ricos com outro membro. Mais um para ajudar a perpetuar a alma cigana, a mesma que nestes tempos de progresso técnológico e reality shows, não deixam que morram.
À sua maneira. É certo.
